Do babaçu se aproveita até a sombra

Por Edmilson Sanches *


A importância do babaçu, em especial seu azeite e óleo, para a produção de biodiesel é algo que, pelo visto e lido, ainda não foi adequadamente avaliado para exploração econômica, industrial, com suas repercussões — positivas — para o meio ambiente e a socioeconomia. Com mais de 90% da produção de amêndoas de babaçu do Brasil, o Maranhão ainda parece dormir em “berço esplêndido” em relação a esse trunfo ambiental, social e econômico proporcionado pela Natureza. É o que conta o caxiense Edmilson Sanches ao comentar o livro “Aproveitamento do Óleo e Azeite do Coco Babaçu na Produção do Biodiesel” do autor José Silva Machado, mestre em Sistemas Ambientais Sustentáveis e professor e pesquisador do Instituto Federal do Maranhão (Ifma).

PREFÁCIO

O que você faria se descobrisse que aquelas plantas do seu quintal são uma mina de ouro vegetal, com potencial econômico imenso, quase infinito, com usos que vão do alimentar ao medicinal, da Química à Farmácia, da Cosmética à Veterinária, da Construção Civil ao mobiliário e à decoração etc. etc. etc.?

Sua resposta, certamente, é a de, com racionalidade e planejamento, ciência e técnica, fazer o melhor aproveitamento possível desse tesouro a céu aberto bem perto de seu nariz.

Pois o Maranhão (nossa “casa”) tem em suas terras (o “quintal”) uma árvore que é cantada em verso, descrita em prosa… e há séculos inadequadamente aproveitada em sua potencialidade socioeconômica e econômico-industrial.

Trata-se da palmeira babaçu e seus frutos e tudo o mais que tem e é essa planta.

O babaçu é uma espécie de boi das matas maranhenses, pois, como se diz do animal bovino, dessa palmeira também se aproveita tudo: seu lenho é empregado em construção de casas ou, se deteriorado, transforma-se em adubo; as folhas servem para coberturas residenciais; com os talos, fazem-se cadeiras; com a palha alimenta-se o gado e também faz-se artesanato; do mesocarpo (espécie de polpa) faz-se uma farinha nutricionalmente rica, com que se preparam bolos, biscoitos, pães, mingaus; com a casca do fruto produz-se carvão; e do óleo de sua amêndoa pode-se fazer tanta coisa, de alimentos a medicamentos e muito mais…

Da palmeira, repita-se, aproveita-se tudo, até o gorjeio do sabiá que nela pousa: com ele, fazem-se versos — belos versos, eternos versos…

Com certa liberdade, pode-se dizer que, no Maranhão, os poetas têm aproveitado melhor a palmeira do que os governantes. Mutatis mutandis, esta é uma das constatações / conclusões a que chega o engenheiro eletricista e mestre em Sistemas Ambientais Sustentáveis José Silva Machado, neste seu livro, Aproveitamento do Óleo e Azeite do Coco Babaçu (Orbignya Speciosa (Mart.)) na Produção do Biodiesel, versão condensada de sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sistemas Ambientais Sustentáveis da Universidade do Vale do Taquari (UNIVATES), do Rio Grande do Sul. Professor do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), caxiense consciente, crítico e exigente, empedernido em defesa de sua cidade e dos potenciais do estado do Maranhão, Machado traz ao final de sua obra o que cuido logo de destacar no começo. Escreve ele:

“Neste momento de pandemia, as Filipinas estão com estudos publicados com o ácido láurico extraído do coco da praia para o tratamento da covid-19, e o Maranhão, com a produção de óleo de coco babaçu, cujo óleo é majoritariamente láurico, desperdiça tamanha oportunidade. Sendo assim mais que urgente, o país precisa arriscar, sair da letargia e buscar soluções para a resolutividade dos problemas, pois, apesar da grande variedade das pesquisas realizadas, ainda não foi incluído [o óleo do coco babaçu] em um programa governamental”.

O experiente engenheiro e mestre, ainda crítico e também esperançoso, mostra preceitos e dá receita:

“[…] para contribuir com a humanidade e resolver os problemas nacionais, dentre outras resoluções, faz-se necessário despolitizar os centros de pesquisas, unificar as pesquisas e disponibilizar capital humano e recursos financeiros. O caminho para o pesquisador no Brasil é muito sinuoso, são grandes obstáculos a serem transpostos, pois quem deveria incentivar prefere podar, desanimar e negar. O apoio é o melhor combustível para regrar a esperança e seguir avante, fortalecidos, em busca de soluções. Desta maneira só resta ao pesquisador mergulhar nestas águas desconhecidas e descobrir os tesouros escondidos, as viabilidades, as oportunidades para a melhoria de todos.”

Mau aluno, o Maranhão parece ter aprendido com o País esse gosto por não saber aproveitar ao máximo (“agregar valor”) as coisas que tem. Jactamo-nos dos nossos campos de soja? Asiáticos compram a produção e, entre outras coisas, transformam o grão em medicamento, fito-hormônio de soja, para tratamento de câncer de útero e mama, entre outras indicações. Bebemos a água do coco-da-baía e jogamos fora? Uma multinacional fabricante de automóveis transforma sua casca fibrosa (mesocarpo) em estofo de seus carros de luxo. Nosso cacau é um dos melhores? Pois quem faz os melhores chocolates é a Suíça, que não planta um pé dessa planta… Somos grandes exportadores de café? A Alemanha, 23 vezes menor que o Brasil em área, compra milhões de toneladas de café todo ano, estoca-as e as revende e também as transforma em variados tipos de café, exportando para o mundo todo por preços que chegam a mais de setenta vezes do que pagou ao Brasil. Além disso, sem plantar um pé de café, a Alemanha tem uma indústria, como a Melitta, voltada para essa fruta e com mais de 160 produtos dedicados ao café, desde filtros de papel a até sofisticadas e caras cafeteiras que fazem a bebida em variados estilos — e nós compramos tudo isso e pagamos royalties…

E nem falemos de nossos minerais e madeiras e espécimens vegetais que migram daqui para o Exterior e fazem as delícias dos inteligentes cientistas e capitalistas. E nós…?

Este livro é de um professor, um engenheiro, um técnico, um cientista, e não é sem razão que seu Autor foi o único da turma do Mestrado a requerer e obter patente em razão de processo que concebeu, testou e foi aprovado. Mas, louvando-se o caráter científico, que se mostra a partir mesmo do título da obra, ressalte-se o aporte histórico-cultural e crítico-propositivo do grande parte do texto. E tudo com gráficos, tabelas e uma certa cronologia, de um modo bem didático-pedagógico (rediga-se: o Autor é, antes de tudo, professor).

Quando se pergunta o porquê da quebra da cadeia produtiva, no cultivo e aproveitamento do babaçu, Machado relaciona, em um crescendo que vai do administrativo ao ético, do bancário ao administrativo. Diz ele: “A falta de planejamento, participação governamental, orientação técnica, consciência ambiental e integridade moral comprometeram sua cadeia produtiva. O crédito fácil e a má organização das empresas concorreram para que rapidamente fossem à insolvência […]”.

“Integridade moral”… Vê-se logo que José Silva Machado tem mãos calosas e não é de amaciamentos e meias palavras. Cônscio de seu papel de ensinar pelos conteúdos mas também pelo exemplo, ele sai da bolha que teimassem em o colocar e, na sua acidez cítrica e lucidez crítica, vai ao cerne, na causa das cousas: a Ética — que, se estivesse presente o suficiente e o necessário nas ações e interações humanas, inclusive na Política e Administração Pública, na Ciência e na Economia e Empreendedorismo, teria como corolário uma melhoria em tudo.

O babaçu é tido como o maior recurso oleífero do mundo, e o Maranhão, sozinho, produz quase 94% da produção do Brasil inteiro (segundo o IBGE, reportando-se a dados de 2012, quando foram produzidas quase 100 mil toneladas de amêndoas de babaçu). Essa quantidade (de produção e participação), é certo, poderia ser aumentada e também poderia ter mais aproveitamento o fruto da palmeira; entretanto, como aponta o observador José Silva Machado, “devido à falta de melhor estrutura, há desperdício do aproveitamento integral do coco babaçu, pois o mesocarpo, produto de alto valor agregado ao fruto do coco babaçu, não é aproveitado em sua totalidade”.

Não podendo (ainda) elogiar os que têm as políticas públicas nas mãos, o Autor destaca quem há muito tempo, gerações inteiras, vem se dedicando à coleta e ao processamento mínimo dos frutos do babaçu: “as mulheres quebradeiras de coco”, “guerreiras”, como as da Reserva Extrativista do Ciriaco, criada em 1992 (30 anos no próximo ano), localizada em Cidelândia, município maranhense, ex-distrito de Imperatriz, segunda maior cidade do estado, onde Machado reside, ensina, pesquisa e tenta dar tento às coisas e às causas pelas quais luta.

Agradecido às mulheres quebradeiras de coco, comovido com o “baixo nível de escolaridade, sem formação profissional”, Machado recorre ao seu homônimo Antônio Machado (poeta espanhol, 1875-1939: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”) e o reescreve, para reiterar, nas mulheres da Reserva, o desejo delas “de realizar, a determinação, a organização, a perseverança, o aprender fazendo, pois é no caminhar que se conhece o caminho”.

Acerca das vantagens do babaçu nem é preciso redizer aqui — até porque algo sobre isso já foi dito. Sobre o biodiesel que se pode extrair dessa amêndoa, Machado destaca: “Devido às suas características, o óleo babaçu é promissor para a produção de biodiesel, fato justificado porque o ácido em questão simplifica a reação para a produção, pois tem cadeia carbônica curta; portanto, o óleo de babaçu, do ponto de vista químico, é uma matéria-prima propícia para a produção de biodiesel”.

Todo mundo sabe o que esse boi vegetal, o babaçu, pode oferecer, se adequadamente explorado. Acerca de seus vários benefícios, inclusive como combustível, já o sabiam os índios e os jesuítas de antanho e os capuchinhos na segunda década dos anos 1600 (o frade e cientista francês Claude d’Abbeville, par exemple). O próprio Rudolf Diesel (1858—1913), o inventor franco-alemão, o confirmou em motores e veículos. Vindo de muito longe, até os noruegueses aportaram em terras maranhenses e instalaram em 1919 sua empresa The Oversea Company of Brasil Limited; e a partir de 1924, outra empresa com nome gringo vai à caça da nossa amêndoa: a Brazilian Babaçu Corporate.

Mais de meio mundo de gente inteligente sabia, soube e sabe das vantagens mil de nosso coco. Outro caxiense que nem José Silva Machado, o advogado e político Paulo Martins de Sousa Ramos (1896—1969), quando dirigiu o Maranhão, de 1936 a 1945, sabia dos benefícios do coco babaçu e incentivou o cultivo da planta, entre outras culturas da época.

Sempre observador, sempre crítico, José Silva Machado reitera: “[…] pode se afirmar que o coco babaçu tem todas as suas partes aproveitáveis e, diante desse fato, conclui-se que já naquela época apresentava grande importância no cenário nacional e mundial, pois a exportação do babaçu correspondia a mais de cinquenta por cento do valor dos gêneros exportados anualmente pelo Maranhão. No entanto, hoje, padece da falta de incentivos, informações técnicas e econômicas e logística, para melhor aproveitamento integral”.

O abecedário de plantas no Brasil para a produção de biocombustível é, com trocadilho, algo que começa com alga. Temos o “A” de “alga” (e “amendoim”), o “B” de “babaçu” (e beterraba), o “C” de “cana-de-açúcar” (e “canola”), o “D” de “dendê”, e saltaríamos para o girassol, a macaúba, a mamona, a soja, o tucum… De todos extrai-se óleo vegetal propício para o biodiesel, o qual, segundo Machado, “coloca a nação brasileira em posição de destaque em relação ao resto do mundo, como uma fonte de energia alternativa, renovável, não tóxica e biodegradável, além de ser substituto principalmente do óleo diesel, combustível de origem não renovável e poluente”. No caso específico de nossa palmeira, o mestre caxiense anota: “O babaçu tem a vantagem por ser nativo, não necessita de desmatamento para o plantio, de insumo, requerendo somente a coleta de forma racional”.

Quando o Maranhão vai aprender a deixar de ser um pobre estado rico não se sabe. Dos 12 milhões de hectares plantados com babaçu na região Nordeste, é no Maranhão que se concentra a maior parte. Pesaroso, anota o Autor: “Mesmo com esse potencial para produção de biodiesel, o Estado não apresenta resultados satisfatórios na produção de biocombustíveis.”

José Silva Machado, é claro, traz neste livro seu tanto técnico, científico. Sobre biodiesel, refere-se a enxofre e compostos aromáticos, ao alto número de cetano e ao teor médio de oxigênio, ao alto ponto de fulgor e à menor emissão de partículas… Adiante, prossegue com coisas que nós os leigos sequer atinamos ou intuímos, como “microemulsão com metanol, etanol, ou butanol”… E a coisa só piora, com “craqueamento catalítico e reação de transesterificação com álcoois de cadeia pequena”.

Há um ar de confiança — embora ainda não de certeza — nas palavras deste livro quando diz e rediz das vantagens do coco babaçu e dos benefícios ambientais, econômicos e sociais do biodiesel. O Autor sublinha a “forma tímida” com que o Estado do Maranhão “vem buscando desenvolver ações”.

Se, para além do técnico e tecnológico que está nesta obra, os gestores do Estado e do País não se sentirem tocados pelo que aqui registra um cidadão, engenheiro, professor e mestre, mirem-se no descortino, na visão de um colega deles, governante, cujas palavras antecipatórias (dir-se-iam, proféticas) em boa hora aqui foram resgatadas. Trata-se de Eduardo Olympio Machado (1817—1855), baiano que governou Goiás, como presidente de Província, até 1850 e, ano seguinte, veio administrar o Maranhão, onde faleceu, em São Luís, em 14 de agosto de 1855. No meio do mandato, em 1853, ele disse sobre aquela visivelmente farta riqueza vegetal — o babaçu –, como está na Enciclopédia Agrícola Brasileira (volume 1; São Paulo: Edusp, 1995), coordenada por Júlio Seabra Inglez de Sousa, que traz transcrição do engenheiro agrônomo e professor catedrático Joaquim Bertino de Moraes Carvalho (1897–1977), que em 1952 era diretor do Instituto de Óleos, do Ministério da Agricultura, e foi conselheiro do Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro. Eis a fala de Eduardo Olympio Machado sobre o babaçu:

“[…] a maior parte dos terrenos da província que se achavam incultos estão cobertos de palmeiras que produzem o coco em grande quantidade dele se extrai um óleo muito fino, que poderia ter muitas e variadas aplicações. Para que o fabrico deste gênero se faça em grande escala, resta apenas descobrir uma máquina, para quebrar com facilidade o ouriço do coco, que é muito rijo. Para o aumento do ramo deste tipo de indústria valia a pena que se desse um prêmio a quem a inventasse.”

Tristemente, ao invés de dar um prêmio a quem inventasse uma máquina que aumentasse a produção das amêndoas de babaçu, talvez se devesse premiar aquele político e/ou gestor público brasileiro, nordestino, maranhense que, fazendo bom uso da ”máquina”, redescobrisse a importância fundamental e mundial do babaçu e nisso investisse o melhor de seu tempo, esforço e outros recursos…

…Porque, por enquanto, aqui nestas plagas, só quem está tratando disso, reavivando o tema, é o Autor desta obra.

*EDMILSON SANCHES é membro da Academia Maranhense de Ciências e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão

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